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Saturday December 16th 2017

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Tomando a Iniciativa: 10 Reflexões para denunciados/as por abuso sexual

Cris road


Introdução:

O que você vai ler a seguir é um trabalho em construção e que provavelmente continuará assim. Escrevo para encorajar o diálogo e para trazer algumas idéias para pessoas que estejam lidando com situações bem difíceis. Não escrevo para trazer respostas para todas as situações em que alguém é acusado de abuso. Cada situação tem características únicas que pedem respostas únicas. O que espero com esse texto é incitar uma conversa sobre como pessoas acusadas de estupro ou abuso sexual devem agir, independente de se sentirem culpadas ou inocentes. Como comunidades radicais que somos, nós precisamos dialogar longamente sobre como lidar com comportamentos abusivos, e essa é uma proposta de caminho para o diálogo. Devemos nos perguntar muitas coisas. Que dever os/as acusados/as tem de assumir responsabilidades, independente de se acharem culpados/as ou inocentes? Como sobreviventes e comunidades, de que maneira nós lidaremos com os/as responsáveis pelos abusos? Como criamos comunidades fortes o suficiente para estarem prontas para encarar situações difíceis e controversas sem nos dividir ou nos esfacelar? A prioridade é definir culpados ou inocentes ou criar processos que exijam responsabilidade e que desconstruam privilégios?

Antes de qualquer coisa, existem alguns aspectos das 10 sugestões que eu gostaria de explicar. Estamos em um mundo em que a maioria absoluta dos abusos ocorre de homens contra mulheres. O abuso é um fenômeno patriarcal. Neste artigo, eu usei linguagem inclusiva, porque eu quis que sobreviventes que escapassem do padrão homem/agressor, mulher/sobrevivente tivessem visibilidade. Eu quis falar com todos/as os/as agressores/as, independente de seu gênero. Esta não é uma tentativa de ignorar o fato de que os abusos e as agressões sexuais são majoritariamente feitos por homens.

Neste artigo eu também me dirijo às pessoas que acham que foram falsamente acusadas. Faço isso principalmente porque acho que precisamos falar com as pessoas que negam a acusação, e que elas precisam assumir algumas posturas que construam uma atmosfera que desafie os privilégios e a opressão. Tudo isso independe do fato de que na maioria das vezes quando as pessoas são denunciadas por comportamento abusivo é por que elas realmente o tiveram. Ainda assim, existe uma mínima incidência de casos nas quais as pessoas são falsamente acusadas.

Esse texto nasce da minha própria experiência lidando com acusações de abuso sexual. Acusações essas que depois se revelaram, pela própria pessoa que meus acusadores disseram ser a sobrevivente, sem validade. Ainda assim, foram três bons meses nos quais, por falta de comunicação e maus entendidos1, eu realmente acreditei que estava sendo acusado por alguém de ter um comportamento manipulador e sexualmente coercitivo. Eu fiz muita análise interna e auto – investigação. Por sorte, eu tinha ótimas pessoas que me ajudaram a processar os sentimentos conflituosos que surgiram enquanto eu lidava com assustadoras acusações de abuso sexual. Essa é a minha maneira de devolver àqueles/as que me ajudaram tanto e à comunidade radical que tanto me inspira. É o resultado de uma experiência bastante real, a experiência de viver essas acusações, e minhas reflexões em decorrência disso.

Eu gostaria de dizer que, na minha opinião, as falsas acusações são também uma forma de abuso emocional. Ainda assim, é muito importante manter uma perspectiva sobre essas coisas. A prioridade, em qualquer situação na qual alguém é denunciado por abuso, deve ser claramente pautada nas necessidades e nos desejos daqueles/as que se reivindicam como sobreviventes. Isso não é simplesmente questão de evitar se equivocar, já que as acusações falsas são extremamente raras. É apoiar a criação de comunidades que confiam mais naqueles/as que se levantam contra opressão que naqueles/as que oprimem. É apoiar aqueles/as que ocupam as linhas de frente na luta contra a hierarquia. Aquelas lindas pessoas que levam a luta pra casa, onde ela é mais difícil, e cuja força deveria ser estampada nas capas dos jornais radicais ao lado das fotos do Black block destruindo propriedades. A militância delas não as deixa quando a manifestação acaba: elas a vivem.

10 Reflexões para denunciados/as por abuso sexual:

1.Seja honesto/a, continue honesto/a, torne-se honesto:

Se você sabe que machucou a pessoa que te denuncia, reconheça. Se você acha que existe uma possibilidade de você tê-la machucado, deixe-a saber disso. Se você tem alguma idéia de que, de algum modo, a maneira como você interagiu com ela pode haver comprometido sua dignidade e limites, deixe-a saber disso. O primeiro passo para lidar com nossas tendências abusivas é sair da defensiva e abandonar a postura de negação. Essa postura é como uma infecção. Começa em um lugar – situações específicas, recusando assumir responsabilidade em certos aspectos da história – e, se não tratada, se espalha e nos consome totalmente. Quando somos capazes de assumir que estamos cientes que algumas coisas não vão bem em nosso comportamento, estamos um passo à frente em lidar de maneira significativa e honesta com isso.

2.Respeite a Autonomia da/o sobrevivente:

Autonomia da/o sobrevivente significa que a/o sobrevivente do abuso, e apenas ela/e, deve toma as decisões de como lidar com o comportamento abusivo. Isso quer dizer que ela/e toma as decisões e você as aceita e convive com elas. Você não vai determinar como ou mesmo se uma mediação/confrontação vai ocorrer, e nem agirá em busca de uma solução. Você deve deixar claro que respeita a autonomia dela/e na situação, e que você está disposto/a a trabalhar por uma solução. Ela/e pode preferir nunca mais estar no mesmo ambiente que você e não querer mais falar contigo. Não é responsabilidade nem dever delas/es tentar buscar uma resolução ou entrar em um diálogo com você, ou tomar qualquer tipo de atitude que você acharia “mais correta”. É sua responsabilidade e dever, como alguém denunciado, respeitar as vontades e as necessidades dela/e.

3.Aprenda a escutar:

É necessário que você abra seus ouvidos e seu coração para a pessoa que está te denunciando. Isso provavelmente vai ser difícil, porque às pessoas tendem a se colocar na defensiva quando são acusadas de fazer algo errado. Poucas pessoas no mundo gostam de ser rotuladas como “a maçã podre da cesta”. Para escutar, você precisará questionar constantemente suas tendências defensivas e reacionárias. Essas sugestões podem ser úteis: a) Deixe que a pessoa que te denunciou conduza o diálogo. Se ela/e quer que você responda a algumas perguntas, responda. Mas, de todo modo, deixe que ela/e direcione o processo. B) Esteja atento/a para o caso de você está formulando respostas e argumentos em sua cabeça enquanto ela/e conta o seu relato da história e tente deixar de fazê-lo. C) Concentre-se no relato dela/e e pare de pensar em como você se lembra das coisas até que ela/e pare de falar. D) Reflita sobre toda a história e não apenas sobre as disparidades que você acha que existem entre a sua versão e a dela/e. E) Converse com seus/as amigos/as sobre como você pode escutar melhor antes de entrar em uma mediação/confrontação.

4 – Pratique a Paciência:

Algumas vezes as coisas tomam tempo para serem resolvidas. Algumas vezes levam meses, anos, décadas para que se chegue a uma resolução e, algumas vezes, simplesmente não há resolução clara. Porém, não há data limite para chegar a uma resolução quando a dignidade humana é ofendida. Seja paciente e nunca tente força uma solução, um processo ou um dialogo. Você pode pedir uma conversa ou uma mediação, mas se a resposta for não ela continuará assim até que ela/e diga que é sim. Não tente ultrapassar os limites da pessoa que te denunciou pedindo para conversar uma vez atrás da outra. Fique atento/a e reflita sobre as dinâmicas de poder nas suas relações.

5.Nunca, jamais , culpe a vítima.

Ela/e não provocou e não é culpada/o pela violência ou o abuso. Ela/e não provocou pela maneira como estava vestida. Ela/e não provocou isso porque ela estava sobre influencia de drogas ou álcool. Ela/e não provocou isso porque é um/a profissional/a do sexo. Ela/e não provocou isso por t6er decidido ficar com você ou ir contigo para a sua casa, ou porque ela é conhecida por ser “fácil”, ou “puta” ou por gostar de sexo casual. Ela/e não provocou isso de nenhuma maneira. É inaceitável que você responsabilize-a/o pelo seu comportamento, dizendo que ela/e é “hipersensível” à sua ameaça de comportamento abusivo. Não é aceitável que você diga que ela/e está “exagerando” a história, porque ela/e é feminista, gay, ativista, punk, etc. É inaceitável dizer que ela/e está inventando, porque tem um histórico de abuso, ou qualquer estupidez parecida. Inventar desculpas para justificar que alguém esteja te culpando pelo seu comportamento agressor é evitar assumir responsabilidade pelo seu comportamento escroto. Isso demonstra sua covardia.

6.Fale por você

Você pode contar a sua experiência, e unicamente a sua. Nunca pense que você sabe como a pessoa que te denunciou viveu essa experiência. As pessoas andam nas mesmas ruas diariamente e tem experiências distintas. Isso é uma característica da vida. Além disso, é muito diferente ter os ventos do privilégio soprando nas suas costas do que ter os ventos da opressão soprando na sua cara enquanto você anda por essas ruas. Você nunca saberá como alguém se sentiu em determinada situação, e, portanto, você não tem o direito de julgar a validade dos seus sentimentos. Se ela/e disse como estava se sentindo, então o primeiro e mais importante é escutar. É importante que você tente ativamente entender os sentimentos delas/es.

7.Não caia em comportamentos silenciadores:

Contando “o seu lado da história”, você pode criar uma atmosfera que silencia pessoas que foram agredidas. Se você sente que existem grandes discrepâncias entre os relatos da história e que você está sendo “falsamente acusado/a”, respire fundo. O primeiro que você precisa saber é que você não deve deixar nunca de se auto-investigar e de se perguntar como seu comportamento afeta as/os outros/as… Esse caso nunca se encerra. Com o tempo você pode perceber que sim, seu comportamento foi abusivo. É sua responsabilidade desafiar constantemente suas noções sobre os efeitos de seu comportamento nos/as outros/as e de desafiar sua compreensão de como você exerce poder nas suas relações. Leia livros, entre em programas de recuperação para agressores/as sexuais, procure um/a terapeuta, e descubra suas próprias maneiras de desafiar a si mesmo/a e suas concepções sobre os efeitos de seu comportamento.

Entenda que se você tentar silenciar a pessoa promovendo “seu lado da história” como “a verdade” você também vai silenciar a outros/as. As pessoas temerão trazer suas histórias à tona e enfrentar a agressão por conta do SEU comportamento silenciador. Se você está comprometido/a em criar um mundo onde as pessoas falem livremente sobre o que está errado, então você evitará se concentrar nas “mentiras” que os/as acusadores/as dizem sobre você e também vai evitar fazer discursos com suas teorias sobre os “reais motivos ” delas/es. Um exemplo que me vem à cabeça é o de um estuprador/ agressor sexual que distribuiu uma lista de 40 argumentos em um show punk para refutar as denúncias de três mulheres contra ele. O panfleto falava incessantemente sobre as disparidades entre a história dessas três mulheres e a “verdade”. Esse é um exemplo gritante de comportamento silenciador, mas ele também pode aparecer de maneiras mais sutis.

O comportamento silenciador é QUALQUER comportamento que tente fazer parecer que a/o sobrevivente do abuso está difundindo mentiras. É qualquer comportamento que tente fazer parecer que o/a abusador/a é a vítima. Este comportamento coloca rapidamente em dúvida o caráter daquela/e que denunciou. Constantemente, leva a uma reação contra a/o sobrevivente, de maneira tanto explicita (ameaças, violências, assédios) como implícita (questionamentos infinitos, comportamentos não solidários: “Eu não quero me envolver nisso”, “Tenho ouvido diferentes versões” ). Comportamentos silenciadores criam uma atmosfera onde as pessoas têm medo e não denunciam seus agressores/as e, portanto, uma atmosfera onde a agressão floresce.

No entanto, isso não significa que você não deve falar sobre como você vivenciou a situação de maneira diferente da/s outra/s pessoa/s que te denunciaram. Simplesmente significa que é sua responsabilidade fazê-lo de uma maneira que seja respeitosa e que não ajude a fomentar uma atmosfera de silêncio em torno de agressões. Talvez você precise relatar suas experiências para aqueles/as com quem você tem uma relação mais próxima e também para aqueles/as que venham falar contigo, mas, como eu disse antes, fale apenas por você mesmo/a. Não compare a sua versão com a delas/es para demonstrar as “inconsistências” que você percebe. Não relate a história da outra pessoa para eles/as. Não insista em como ela/e deveria haver chamado tua atenção de outra maneira. Não fale sobre as falhas da outra pessoa na relação contigo. Não assuma o papel de vítima de uma “caça às bruxas”. Não afirme que elas/es estão mentindo e, se a sua versão é diferente da delas/es, deixe claro que esta é a maneira como você experimentou a situação. Deixe o que você diz ser claramente visto exclusivamente como as suas memórias. Se você precisa desabafar, encontre uma boa pessoa para fazê-lo, que esteja fora da sua comunidade/ círculo social imediato (se você procurara bem vai encontra um/a terapeuta que queria trabalhar contigo, preferencialmente alguém com uma visão feminista/radical), ou alguém que esteja completamente fora da sua comunidade (alguém que você tenha certeza que nunca sofreu nenhuma agressão). Se você sinceramente acredita que você está sendo acusado/a injustamente, seu caráter terá que falar por você, ao invés de você falar pelo seu caráter.

8.Não se esconda atrás de seus amigos

Freqüentemente, as pessoas mais dispostas a defender os/as agressores/as não são os/as próprios/as agressores/as, mas seus amigos/as , companheiros/as e namoradas/os. “Mas ele/a é uma ótima pessoa/ativista/artista”, ou “Ele/a contribui tanto com a comunidade”, ou ainda “A pessoa que eu conheço nunca faria algo assim”, são algumas reações defensivas comuns dentre as muitas. Se você acha que estão tentando te isolar de seus problemas ou te impedir de questionar seus atos… Deixe claro que isso é inaceitável. Você precisa escutar críticas e a raiva das/os sobreviventes e suas/seus aliadas/os. Você também precisa impedir que os/as outros/as caiam em comportamentos silenciadores. Deixe claro que, se eles/as realmente se importam com você, ao invés de defender seu caráter e reagir às acusações, eles/as precisam te ajudar a se auto-analisar e descobrir maneiras de transformar comportamentos dominantes.

9. Atenda aos desejos da/o sobrevivente e da comunidade:

Assumir a responsabilidade pelos nossos atos opressores é uma parte integral do processo de cura. Você precisará atender aos desejos da/o sobrevivente e da comunidade não apenas para a cura delas/es, mas para a sua também. Se elas/es querem que você se afaste de alguns projetos/atividades ou que você participe em programas de recuperação de agressores/as, ou que você faça resumos de livros que falem sobre como acabar com o estupro e a agressão, ou qualquer coisa que esteja dentro das possibilidades, não discuta…. Faça o que elas/es estão pedindo. Você precisa demonstrar à/ao sobrevivente que você está agindo de boa fé e que você está pronto/a para lidar com seus problemas de agressão, ou ao menos que você está sinceramente disposto/a a investigar a possibilidade de seu comportamento ser abusivo. Você precisa mostrar à comunidade e à/ao sobrevivente que você respeita a autonomia delas/es e a habilidade delas/es de tomar decisões que vão em busca do desejo de segurança, cura e do fim das opressões. Mais uma vez, se você quer viver um mundo livre de agressões, abusos, estupros e opressões você apoiará a autonomia da/o sobrevivente e a autodeterminação da comunidade, ainda que você sinta que você está sendo “falsamente acusado/a”. Não caia no comportamento silenciador de atacar as demandas e os processos da/o sobrevivente e da comunidade. Isso é o que agressores/as tipicamente fazem para criar uma cortina de fumaça que tire o foco deles/as mesmos/as.

10.Assuma a responsabilidade… Acabe com as agressões e os estupros antes deles começarem:

É preciso muita coragem e autoconhecimento para admitir que você machucou alguém, que você comprometeu a dignidade e a auto-estima delas/es, ou que você exerceu poder sobre alguém das piores maneiras. É preciso muita sinceridade para pedir desculpas sem esperar ser aplaudido/a ou agradecido/a por isso. No entanto, é isso que é necessário para começar a superar nossas tendências abusivas. Saber que você errou com alguém e, mesmo assim, fazer o contrário dessas coisas é perpetuar as hierarquias. É mais do que ser simplesmente cúmplice: é apoiar esse sistema. Serão necessárias honestidade e auto-investigação profunda para começar a superar nossas tendências abusivas. A partir do momento em que você é capaz de admitir que tem um problema (algumas vezes ou sempre) com agressões contra pessoas, você pode começar a aprender como e porque você faz isso. Você pode aprender a perceber algumas advertências de que você está caindo em velhos padrões e você será mais capaz de averiguar seus comportamentos. Minha vida tem sido um processo de desaprender esses velhos padrões de abuso, de aprender a rejeitar tanto o papel de agressor como de agredido, e isso está longe de acabar. Maus hábitos são facilmente adquiridos novamente e muitas vezes é fácil pensar que você não está exercendo poder sobre alguém. Devemos questionar constantemente essas idéias exatamente como precisamos questionar todas nossas idéias…

É crucial que a gente aprenda a pedir consentimentos dos/as nossos/as parceiros/as sexuais. É crucial que a gente aprenda a reconhecer abusos agressivos e passivos em suas várias formas: econômica, emocional, física e sexual, e que nós paremos com ele antes que se chegue a pontos mais dolorosos e severos. Devemos denunciar quando vemos isso em outras pessoas, assim como em nós mesmos. Esse é um processo de superar a opressão, de rejeitar os papéis de opressor/a e oprimido/a. É um caminho que leva à liberdade e que se cria ao caminhar. Você vai dar o primeiro passo?

Por Wispy Cockles – Tradução Pimenta Negra

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